STIS 2017

7. 20/Setembro: Leitura e Educação Intercultural

7.1. registro 20/setembro

Registro da Conferência em chat escrito, de 20 de setembro de 2017:

 

 A Leitura e a Educação Intercultural: exigência de novas práticas educativas
conferencista: Profª Drª Joana Cavalcanti

 

 

 

moderador: Equipe STIS

 

 

[19:10] <adelmaa> Boa noite, profª Joana!
[19:11] <adelmaa> Seja bem-vinda!
[19:11] <adelmaa> Nossa conferência começará às 19:30 horário de Brasília.
[19:11] <adelmaa> Ainda temos alguns minutinhos para divulgação da conferência.
[19:17] <adelmaa> Prezada Joana, gostaria de te agradecer por sua generosidade em aceitar nosso convite.
[19:17] <adelmaa> Boa noite, AnaMatte!
[19:18] <adelmaa> Hoje o STIS tem a honra de trazer a literatura para o foco central do nosso evento.
[19:19] <adelmaa> Profª Joana, a AnaMatte é a grande Lider do Grupo Texto Livre, foi minha orientadora no mestrado e doutorado e hoje congrega todos em todos de umrpoejto de educação livre e para todos.
[19:19] <adelmaa> Boa noite, Thalita!
[19:21] <adelmaa> Profª Joana?
[19:22] <adelmaa> Ana Matte, você gostaria de dizer algo do Grupo Texto Livre para a Profª Joana?
[19:26] <adelmaa> Temos ainda 4 minutinhos para nossa prosa.
[19:27] <daniervelin> oi, AnaMatte !
[19:27] <daniervelin> boa noite!
[19:27] <adelmaa> Ana Matte, por gentileza, dê op para Heloisa,por gentileza?
[19:28] <acris> opa
[19:28] <adelmaa> Em 2 minutinhos daremos início a nossa conferência.
[19:28] <adelmaa> Obrigada!
[19:28] <acris> desculpem, me enganei
[19:28] <acris> Heloisa: pode assumir
[19:29] <adelmaa> Ok! Começaremso agora!
[19:29] <adelmaa> Boa noite a todos e todas! É com imensa alegria que venho, em nome do Grupo STIS - SEMINÁRIOS TEÓRICOS INTERDISCIPLINARES DO SEMIOTEC Grupo Texto Livre, dar as
[19:29] <adelmaa> boas-vindas a cada um de vocês que nos honra com sua presença: conferencistas e participantes.
[19:29] <adelmaa> O Stis é um programa de conferência realizado na penúltima semana de cada mês, de março a dezembro, das 19:30 às 21:00 horas congregando
[19:29] <adelmaa> pesquisadores do Brasil e do exterior em torno de temas diversos para uma educação livre e democrática.
[19:30] <adelmaa> O STIS, a Revista Texto Livre, o UEADSL e o EVIDOSOL/CILTEC são pés do programa polvo denominado TEXTO LIVRE do CNPq, coordenado pela Profª Drª Ana Cristina Fricke Matte.
[19:30] <adelmaa> Ao longo desta caminhada, o STIS tem se firmado como um canal democrático de divulgação das pesquisas relevantes que estão sendo desenvolvidas no Brasil e no exterior dentro e fora das universidades.
[19:30] <adelmaa> Na verdade, o grupo STIS, tem muito o que comemorar, pois, neste curto período de tempo, o STIS já promoveu 24 eventos, com a presença de ilustres pesquisadores
[19:30] <adelmaa> tais como: Ana Cristina Fricke Matte (UFMG), Luis Gonçalves (Princenton University); Walcir Cardoso (Concordia University), Luiz Tatit (UNICAMP),
[19:30] <adelmaa> Rivânia Maria Trotta SantAna (UFOP), Almeida Filho (UNB), Brian Street (Kings College/Londres), Julio Paz (Argentina), Ana Cláudia Santos (Educadora Nota 10 - Fundação Vitor Civita), dentre outros.
[19:30] <adelmaa> Também divulgamos o STIS em dois eventos internacionais ocorridos: CLAFP/Brasília e no 19º Intercâmbio de Pesquisa em Linguística Aplicada (19º InPLA) e 5º Seminário
[19:30] <adelmaa> Internacional de Linguística (5º SIL), este último como convidados do Prof. Marcelo Buzzato. Para que este trabalho se concretize a cada mês contamos com a colaboração voluntária de uma equipe fantástica de seres humanos
[19:31] <adelmaa> altruístas que compartilham da mesma concepção de que as mudanças na nossa sociedade só acontecerão através do acesso a educação para todos.
[19:31] <adelmaa> Assim, mais um mês de trabalho, de conferências extraordinárias, de encontros de saberes e rico de experiência se inicia hoje no STIS. Com ele, novas
[19:31] <adelmaa> ideias, novos projetos, novos expectativas, anseios e vontade de compartilhar o fazer
[19:31] <adelmaa> educação de forma democrática, ou seja, com acesso gratuito a todos os interessados. Este ano o GRUPO STIS tem desejos que almejamos concretizar: ampliar ainda mais nossas parceiras com instituições
[19:31] <adelmaa> educacionais e não educacionais que queiram, como a gente, dar acesso ao conhecimento a quem desejar recebê-lo.
[19:31] <adelmaa> Para que o STIS apresente a vocês as melhores conferências e os melhores conferencistas (claro!), contamos com uma equipe formada por 20 membros voluntários, que trabalham
[19:31] <adelmaa> incansavelmente com amor, consciência e dedicação a uma só causa: fazer a diferença no mundo por meio da educação.
[19:31] <adelmaa> Quero agradecer publicamente à Profª Drª Ana Cristina Fricke Matte, idealizadora de todo Projeto Texto Livre, do qual o projeto STIS é uma de suas crias. Agradeço pela confiança em
[19:32] <adelmaa> mim depositada para coordenar este valioso projeto e aos membros da equipe STIS, que voluntariamente nos ajuda a fazer este evento acontecer.
[19:32] <adelmaa> Gostaria de agradecer também a todos os membros do STIS que fazem mês a mês este evento acontecer. Hoje quero agradecer, especialmente, a nosso
[19:32] <adelmaa> membro do STIS Profª Heloísa Davino por trazer para este evento a grandeza da Literatura e nos indicar dois grande nomes da área para serem nossos conferencistas convidados.
[19:32] <adelmaa> Farei agora uma breve apresentação de nossos conferencistas convidados. Nossos dois conferencistas convidados são:
[19:32] <adelmaa> A Profª Drª Joana Cavalcanti é doutora em Teoria Literária, escritora e conferencista. Leciona e coordena projeto na Fajid e na Universidade Joaquim
[19:32] <adelmaa> Nabuco. E como disse Luana Freire a Joana é filha que cuida, irmã que ama, avó que deslumbra . È mãe, é amiga que acolhe. Parente que lê e se encanta.
[19:32] <adelmaa> Vocês podem acessar também duas entrevistas da professora Joana
[19:32] <adelmaa> Cavalcante neste dois vídeos:
[19:33] <adelmaa> https://www.youtube.com/watch?v=MvpyNMOySzs https://www.youtube.com/watch?v=w7ECtg0rV4s
[19:33] <adelmaa> e também apreciarem suas obras literárias, todos da editora Minguilim: As setes saias da lua A menina da chuva
[19:33] <adelmaa> Histórias no feminino E foram felizes para sempre Caminhos da Literatura Infantil e juvenil Pedagogia da Educação - O jornal como proposta pedagógica.
[19:33] <adelmaa> Nosso segundo conferencista convidado é o Prof Dr. João Luís Anzanello Carrascoza É graduado em Publicidade e Propaganda pela Escola de
[19:33] <adelmaa> Comunicações e Artes (1983), com mestrado (1999) e doutorado (2003) em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo, onde é professor
[19:33] <adelmaa> da disciplina Redação Publicitária desde 1990. É também docente do Programa de
[19:34] <adelmaa> Pós-Graduação em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (SP), com pós-doutorado na Universidade Federal
[19:34] <adelmaa> do Rio de Janeiro (2014) sobre a interface publicidade e literatura. Comunicação é a sua área de investigação, com ênfase nos processos
[19:34] <adelmaa> retóricos e análise do discurso da publicidade. Escritor, vem publicando coletâneas de contos e romances, além de
[19:34] <adelmaa> obras para crianças e jovens, que lhe valeram alguns dos mais importantes prêmios literários do país: Jabuti, Guimarães Rosa/Radio France Internationale,
[19:34] <adelmaa> Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e Associação Paulista dos Críticos de Arte.
[19:34] <adelmaa> É uma honra recebê-los Profª Drª Joana Cavlcanti e Prof Dr João Carrascosa, como conferencistas convidados, em nossa sala virtual.
[19:34] <adelmaa> Sejam bem-vindos! A todos os participantes do Brasil e do exterior, gostaria de agradecer em nome de toda a equipe STIS pela suas honrosas presenças. É um prazer tê-los conosco nesta noite de quarta-feira.
[19:34] <Heloisa> /voice Joana Cavalcanti
[19:34] <adelmaa> Obrigada por nos ajudar a fazer do STIS uma ação concreta de democratização da educação de todos e para todos.
[19:35] <adelmaa> Passarei a palavra neste momento a moderadora deste evento, a profª Heloísa Davino que explicará em detalhes o funcionamento de nossa conferência virtual. Obrigada, sejam bem vindos e um ótimo evento a todos!
[19:36] <Heloisa> Boa noite a todos! Para quem participa pela primeira vez, teremos 30 minutos de apresentação a apresentação acontece apenas por escrito, no chat, ou seja, não há vídeo
[19:36] <cavalcanti> Boa noite a todos! Uma satisfação e alegria encontrar a Heloísa.
[19:37] <Heloisa> nem audio. Durante esse tempo, a sala estará moderada, isso quer dizer que ao darmos voz aos apresentadores tudo o que as outras pessoas escreverem
[19:37] <Heloisa> não será visto pelos conferencistas, mas apenas pelo operador, o que impede interrupções para quem está acompanhando a comunicação. Mas, após
[19:38] <Heloisa> não será visto pelos conferencistas, mas apenas pelo operador, o que impede interrupções para quem está acompanhando a comunicação. Mas, após em sua apresentação o código para os slides será indicado no início de cada apresentação. Nas apresentações de hoje não faremos uso de slides.
[19:38] <Heloisa> Vocês podem regular o tamanho das janelas do chat ajustando a coluna vertical central entre as partes (ao meio desta página de internet)
[19:38] <Heloisa> Desejamos excelentes conferências a todos! Professora Joana Cavalcanti, pode começar, por gentileza. Obrigada, de antemão, aos dois conferencistas, por aceitarem o convite do STIS.
[19:39] <cavalcanti> A gratidão é minha, pois falar de leitura e literatura para mim é vida.
[19:40] <cavalcanti> Cumprimento a todos e espero que o nosso diálogo à distância seja proveitoso para todos nós.
[19:42] <cavalcanti> Tenho trabalhado nos últimos tempos com a literatura, sobretudo a LIJ. Sempre em articulação com outros discursos. Acredito naquilo que Edgar Morin nos propõe. Trabalhar na perspectiva da interação , em rede, em conexão. Destra forma, hoje trago a questão da Literatura e a Educação Intercultural.
[19:44] <cavalcanti> A LEITURA E A EDUCAÇÃO INTERCULTURAL: EXIGÊNCIA DE NOVAS PRÁTICAS EDUCATIVAS
[19:45] <cavalcanti> Tenho trabalhado nos últimos tempos com a literatura, sobretudo a LIJ. Sempre em articulação com outros discursos. Acredito naquilo que Edgar Morin nos propõe. Trabalhar na perspectiva da interação , em rede, em conexão. Destra forma, hoje trago a questão da Literatura e a Educação Intercultural.
[19:49] <acris> [19:49] <cavalcanti_> O processo de leitura é polissêmico, transversal, pessoal, coletivo e promove aprendizagens importantes, significativas e transformadoras acerca da realidade.
[19:49] <acris> [19:49] <cavalcanti_> Tal ideia parece ser consensual entre os pesquisadores e estudiosos da área, embora exista muita controvérsia quanto à existência de apenas uma definição para a leitura.
[19:50] <cavalcanti_> O ato de ler está profundamente relacionado com questões de ordem ontológica que apelam para uma hermenêutica geral de busca de sentido para a realidade.
[19:50] <cavalcanti_> Ainda assim e cada vez mais, se enfrentam barreiras relacionadas com a formação de leitores em todos os setores socioeducativos.
[19:51] <cavalcanti_> Criam-se novas abordagens pedagógicas e filosóficas, se investem em projetos e programas de incentivo à leitura, oferecem-se formações acerca da leitura para educadores,
[19:51] <cavalcanti_> pais, professores e até para profissionais de outras áreas. Entretanto, a leitura como espaço para a produção de sentido continua a não fazer parte da práxis educativa.
[19:51] <cavalcanti_> A formação de leitores, ainda está muito relacionada com a decifração do código linguístico que nem sempre tem a ver com a atribuição de sentido, embora a decifração da palavra seja uma competência estruturante para que se possa buscar e desvelar sentidos.
[19:52] <cavalcanti_> Não pretendemos afirmar com isto que tal preocupação por parte dos professores não seja pertinente uma vez que a atribuição de sentido está relacionada com as competências de decifração, mas por outro lado sabemos que não consiste
[19:54] <acris> [19:54] <cavalcanti> Enfim, conforme o investigador Toffler (1979): “A tecnologia do futuro requer, não milhões de homens letrados, prontos a trabalharem em uníssono, em tarefas repetitivas, nem a obedecer cegamente a
[19:54] <cavalcanti> ordens, mas homens que possam formular juízos críticos, que possam encontrar os seus caminhos através de ambiências novas, que estejam aptos a localizar novos relacionamentos dentro da realidade rapidamente em mutação.” (pp.335-6).
[19:55] <cavalcanti> Um futuro que já faz parte do nosso acelerado quotidiano. Portanto, a formação de leitores deve desenvolver competências de interpretação das variadas experiências que fazem parte da biografia do sujeito.
[19:58] <acris> [19:58] <cavalcanti_> As biografias fazem-se a partir da interação com os outros numa permanente (re)construção das identidades. Tal reconstrução está intimamente relacionada com as condições históricas e sociais de cada leitor, visto que este se insere em circunstâncias e contextos, o que inclui os pontos de conexão que são de ordem universal.
[19:58] <cavalcanti_> Concordamos com o crítico Bloom (2001) quando afirma que a leitura/a literatura tem o sentido de alteração, transformação e estas devem ter caráter universal. Validando-se pela necessidade intrínseca da pessoa em se identificar com os diversos percursos humanos com o objetivo de se sentir capaz de ver no Outro, aquilo que também é seu, mesmo que os contextos sejam diferentes.
[20:00] <acris> [20:00] <cavalcanti__> Certamente, não será apenas o ato de descodificar o signo que permitirá o acesso à interpretação profunda, comprometida e adequada. Seria muito ingênuo acreditar que a leitura limita-se ao ato de decifrar, pois saber ler “(…) é ser capaz de extrair as inferências autorizadas por um texto e de lhe dar alma; é recriar ou criar o significado de uma mensagem até aí implícita” (Bonboir, 1970, p. 33).
[20:00] <cavalcanti__> Ensinar a ler para obter sentido é um dos grandes desafios que os professores enfrentam. Sublinhamos o fato de que tal proposta ainda não está interiorizada por muitos professores, estes formados a partir de paradigmas positivistas para os quais ensinar tem o significado de ‘empurrar para dentro’ o máximo de informações, mesmo que estas não sejam significativas para os estudantes.
[20:01] <cavalcanti__> Consideramos a premissa de que a leitura é uma aprendizagem que se faz durante a vida inteira. Nos tornamos leitores na interação com os outros, mesmo quando tais interações pressupõem os atritos e as fricções que provocam mais do que o diálogo, a dialética de sentido.
[20:03] <acris> [20:03] <cavalcanti> Quando se discute a formação de leitores, quase sempre, existe uma recorrência bastante grande aos clichês tão próprios dos discursos contemporâneos que utilizam a leitura como acesso para os mais diversos e exóticos interesses políticos e ideológicos. Tem-se a impressão de que todas as pessoas estão plenamente conscientes da importância da leitura para a vida pessoal e coletiva dos indivíduos.
[20:03] <cavalcanti> Discutir sobre leitura em larga escala deixou de ser preocupação real e fundamentada para se tornar mais um instrumento de manipulação dos sistemas de mercado. Enfim, nos últimos tempos, pessoas com propostas aliciantes de formação de leitores têm invadido os contextos educativos e quase todos se sentem capacitados para dar “receitas”, indicar caminhos, sugerir pistas, conduzir crianças ao ler mais e mais, mesmo que o
[20:04] <cavalcanti> dizer que a leitura rápida e ligeira é uma impossibilidade para que se façam outras leituras mais complexas, inquietantes e questionadoras. Queremos apenas enfatizar que para além das leituras amenas que exigem basicamente a decifração dos códigos, existem as leituras que nos oferecem a possibilidade de abrir janelas, as reais e as imaginárias. Que são aberturas intersemióticas.
[20:04] <cavalcanti> O texto enquanto tecido, urdidura e trama remete-nos para o próprio significado de teia que não se encerra naquilo que se propõe como fim, mas antes pelo contrário colige na iniciação de outros pontos capazes de suscitar novas realidades que são a essência de possibilidades relacionadas com a extração de sentido.
[20:04] <cavalcanti> A palavra é a sua própria virtualidade ao habitar na linguagem que não apenas comunica e informa, mas se pronuncia no ato de leitura como sendo a extensão do pensamento, do olhar e da alma.
[20:06] <acris> [20:06] <cavalcanti_> O gesto tem origem na própria necessidade humana de buscar outros territórios, de ampliar-se na horizontalidade, de agrupar-se pelas carências naturais.
[20:06] <cavalcanti_> O próprio gesto de conseguir tocar e agarrar o mundo com as mãos resultou na instrumentalização da realidade, facilitou a percepção e aproximou uns dos outros porque a mão que se estendia para colher folhas e frutos, espalhar os grãos na terra e fazer o fogo também se humanizava ao tocar o Outro
[20:06] <cavalcanti_> e por isso o cientista Maturama (2002) defende a linguagem como espaço inaugural do amor, da necessidade do Outro. Para este autor a linguagem é o lugar da reunião, da permanência, da construção social de vínculos que são de ordem afetiva, emocional, mas também política no amplo sentido do ato político de interferir na organização da polis.
[20:07] <cavalcanti_> De alguma forma, a ideia de Maturama se aproxima do pensamento do pedagogo e pensador Freire (1997) que deixa entrever em toda a sua obra o valor da palavra como semente de sentido capaz de gerar a ‘palavramundo’.Capaz de provocar a compreensão
[20:08] <cavalcanti__> A leitura e a educação intercultural: exigência de novas práticas educativas
[20:09] <cavalcanti__> É o contrário do amor que promove o desconhecimento do Outro, o desrespeito, a indiferença, o preconceito, as desigualdades que resultam em ameaça, injustiça e guerra. Para Freire (1997) a leitura é uma alavanca determinante para a interpretação da realidade e intervenção social.
[20:09] <cavalcanti__> Constitui-se como um sistema de organização e reorganização do mundo. Para este autor a palavra tem o sentido de apropriação da realidade, configura-se numa capacidade de leitura de mundo, interpretação e produção de sentido, daí afirmar que a leitura é competência inerente ao ser humano, devendo ser ampliada a partir das múltiplas experiências vividas em comunidade.
[20:09] <cavalcanti__> São as partilhas geradas a partir do ato de pensar a realidade que constroem uma visão de mundo e conferem poder, autonomia e voo. Freire (1997) era mais do que um pedagogo. Pensava na Educação como um ato político, transformador.
[20:10] <cavalcanti> Assim também ele ampliou o conceito da palavra leitura, dando-lhe uma conotação política, sendo o ato de leitura uma ação dinâmica, social e multifacetada. Afirmou muitas vezes que a leitura de mundo precede a leitura da palavra, espelhando o sentido do homem e do seu fazer a partir do compromisso assumido nas práticas sociais.
[20:11] <cavalcanti__> É possível que o encontro de ideias entre Freire e Bakhitine aconteça a partir do fato de que ambos pensam a linguagem como um lugar político e o ato de leitura como espaço de emergência do sujeito que se apropria da ‘palavramundo’ para pensar acerca da realidade. Para ambos, a leitura é um dos mais poderosos instrumentos para se ampliar a compreensão do eu e do Outro com vistas à transformação social.
[20:12] <cavalcanti> É possível que o encontro de ideias entre Freire e Bakhitine aconteça a partir do fato de que ambos pensam a linguagem como um lugar político e o ato de leitura como espaço de emergência do sujeito que se apropria da ‘palavramundo’ para pensar acerca da realidade. Para ambos, a leitura é um dos mais poderosos instrumentos para se ampliar a compreensão do eu e do Outro com vistas à transformação social.
[20:12] <acris> [20:12] <cavalcanti> É possível que o encontro de ideias entre Freire e Bakhitine aconteça a partir do fato de que ambos pensam a linguagem como um lugar político e o ato de leitura como espaço de emergência do sujeito que se apropria da ‘palavramundo’ para pensar acerca da realidade. Para ambos, a leitura é um dos mais poderosos instrumentos para se ampliar a compreensão do eu e do Outro com vistas à transformação social.
[20:16] <acris> [20:16] <cavalcanti_> “Ler é viajar pelo mundo. Conhecer outros povos, outras terras, outras culturas. É conhecer também seu mundo interior, Identificando emoções e sentimentos. É tornar-se sensível e criativo.” (Margareth Lehmen)
[20:16] <cavalcanti_> Consideramos que tanto a Leitura quanto a Educação Intercultural podem se oferecer como espaço significativo para as práticas pedagógicas diversificadas, dinâmicas, lúdicas, criativas e comprometidas com os processos de mudança.
[20:16] <cavalcanti_> A perspectiva de se articular a leitura com propostas da Educação Intercultural poderá constituir-se como um interessante instrumento de luta contra as desigualdades sociais, bem como de enriquecimento acerca da realidade, dos contextos e do Outro como uma mais-valia.
[20:17] <cavalcanti_> Acreditamos que a pedagogia intercultural deve se tornar uma prática educativa a ser valorizada pelos educadores e professores porque se propõe como lugar de abertura, questionamento acerca de como lidamos com Outro e com as diversas realidades
[20:17] <cavalcanti_> A leitura é um poderoso instrumento de apropriação da realidade, na medida em que atua de forma recuperadora, integradora e transformadora. Faz-nos refletir criticamente sobre os dados oferecidos pelo real e para além dele. Conforme Cortesão (2003) “a articulação entre o pedagógico, a consciência e a intervenção é (…) um processo crucial para se poder aceder a uma situação de consciencialização.
[20:17] <cavalcanti_> A não existir esta articulação, poderá o processo educativo (…) ser desviado da sua intencionalidade mais profunda” (Rodrigues, p. 60). Neste sentido, consideramos que a leitura seja um passaporte para uma interpretação consciente da realidade, devendo conduzir o sujeito aos processos de alteração de si e do meio no qual se insere, pois o ato de ler como já referimos não se conclui no momento de descodificação de u
[20:18] <cavalcanti_> processo contínuo de percepção da realidade, ampliando-a através de outras possíveis interpretações acerca da condição humana.
[20:18] <cavalcanti_> Assim, o ato de leitura se constitui numa ação de continuidade entre a memória das narrativas vividas e um tempo presente que se lança para a realização do futuro, sendo um ato de extencionalidade, prolongamento, no qual reunimos todo o nosso conhecimento de mundo para pensar acerca da história, da sociedade e da cultura, tal como aponta o autor Geraldi (1994) ao discutir sobre a leitura como sendo um processo de movimentos
[20:19] <cavalcanti_> instabilidade entre aquilo que é a realidade lida e aquilo que é sua possibilidade enquanto espaço para múltiplas significações.
[20:20] <cavalcanti_> Temos então, a ideia já recorrente de leitura como teia, rede de sentidos, pois “Talvez seja possível pensar a leitura como uma oferta de contrapalavras do leitor que, acompanhando os traços deixados no texto do autor, faz estes traços renascerem pelas significações que o encontro de palavras e contrapalavras produz.
[20:20] <cavalcanti_> Para pensar a leitura a partir desta perspectiva, é preciso enfrentar o problema de construir, no fluxo das instabilidades, uma estabilidade, e confessá-la ao Outro como uma posição provisória que permite propor hipótese. Eis pois esta posição: instaurar a linguagem como um processo de contínua constituição que se produz na precariedade
[20:20] <cavalcanti_> que a temporalidade implica.” (p.264) Tal abordagem de leitura e linguagem aproximarse daquilo que Bakhtine (1992) e Morin (1997) pensam acerca da hermenêutica do texto, sendo esta, uma realidade proposta que se concretiza no ato de leitura e no sujeito que lê a partir das conflitualidades exigidas pelas relações tecidas através das
[20:21] <cavalcanti_> experiências vividas, das histórias construídas e das interferências provocadas nos objetos lidos. Para estes autores o acto de interpretação é também de intervenção, na medida que a visão de um determinado objecto acontece mediante o olhar de alguém que infere a partir do seu conhecimento de mundo e experiências vividas. Tal fato não é
[20:21] <cavalcanti_> condicionante, mas contrariamente pode se converter em motor de busca, de ‘operação de caça’, expressão utilizada por Geraldi (1994), visto que tanto o objeto altera-se mediante a leitura como o leitor também, frente à captura e compreensão do objeto.
[20:22] <cavalcanti_> O ato de leitura é um ato criador de ideologias, crenças, valores, comportamentos e atitudes face aos contextos. O poder concedido pela leitura extrapola as situações condicionadas pela construção da diferença que diminui e oprime o Outro em muitos
[20:22] <cavalcanti_> sistemas educativos e sociais. Isto não quer dizer que o poder de interpretação crítica do mundo torna todas as pessoas mais conscientes e melhores, mas podem provocar a reflexão necessária para que estas repensem acerca das suas representações do Outro e
[20:22] <cavalcanti_> tenham a oportunidade e a coragem para se alterarem face à sua leitura de mundo. Finalmente, propomos a palavra como semente de sentido que sendo um signo capaz de se articular com as mais diversas linguagens apela para o que lhe transcende,
[20:23] <cavalcanti_> funcionando desde sempre como elemento recuperador de visão de mundo. A palavra que nunca é inocente e que faz parte da inauguração do sujeito capaz de interferir no contexto porque lhe confere poder para reinventar a realidade e construir pontes
[20:23] <cavalcanti_> simbólicas entre o Eu e o Outro.
[20:23] <cavalcanti_> A pedagogia intercultural poderá se constituir como espaço educativo basilar de formação de leitores capazes de compreender o seu ato de leitura e mais que isso, compreender-se no ato de leitura e comprometer-se no ato de transformar a realidade, diminuindo distâncias entre as pessoas na medida em que todas as narrativas humanas
[20:24] <cavalcanti_> deveriam se converter numa linguagem de respeito pela vida e pelo Outro. Logo a ‘palavramundo’ pode se identificar com o vivido por todos os seres humanos que ao partilharem a experiência simbólica, única e inesgotável de se narrarem, extrapolam as fronteiras do particular e se universalizam através dos mais matizados sentimentos e convertem a palavra em semente que possibilita (a)colher o mundo.
[20:31] <acris> ...
[20:31] <Heloisa> Parece que a Profª Joana teve algum problema técnico
[20:32] <Heloisa> e para não atrasar vamos dar início à segunda conferência da noite
[20:33] <Heloisa> a Profª Joana poderá terminar sua fala no momento em que abrirmos para as perguntas.
[20:34] <cavalcanti> Para concluir, quero dizer que a Literatura, a leitura
[20:34] <cavalcanti> e a arte podem ser a ponta de lança
[20:34] <Heloisa> conclua Profª Joana
[20:34] <cavalcanti> , o eixo ou motor de busca para as necessárias mudanças que teremos de operar nos próximos tempos
[20:35] <cavalcanti> Ensinar a ler não é fácil. é tarefa árdua.
[20:35] <cavalcanti> Porque ensinar a ler é ensinar a técnica do voo.
[20:35] <cavalcanti> o que implica ensinar a liberdade e a autonomia.
[20:36] <cavalcanti> Mas os cursos de formação de professores ainda
[20:36] <cavalcanti> trabalham para formar pássaros presos, ainda que a gaiola seja dourada.
[20:37] <cavalcanti> Mas é possível reencantar a escola
[20:37] <cavalcanti> , constrir uma escola para a formação de pessoas críticas e motivadas para o novo, para o diferente.
[20:39] <cavalcanti> Leitura e Educação Intercultural devem ser articuladas porque a literatura é a vida. Faz parte de uma experiência significativa, na qual nos encontramos com diversos outros, além daqueles que nos habitam.
[20:40] <cavalcanti> A literatura enquanto expressão artística nos coloca numa dimensão existencial única, onde podemos viver da dor ao amor. Lutas e superação. Experimentarmos sermos outros e em espaços diversos.
[20:41] <cavalcanti> Ler e Ser são verbos que se conjugam juntos. Não existimos fora da linguagem. Somos linguagem e na linguagem nos reconhecemos como sujeitos biográficos. Por isso
[20:42] <cavalcanti> as narrativas nos interessam e convidam. Queremos ser e somos na possibilidade de interpetrar e dar significado ao que recolhemos , colhemos e resignificamos.
[20:44] <Heloisa> Profª Joana, terminou sua fala?
[20:45] <Heloisa> Por gentileza, nos informe se já terminou sua apresentação.
[20:46] <Heloisa> Parece que a Profª está novamente com problemas técnicos.
[20:46] <acris> [20:44] <Heloisa> Profª Joana, terminou sua fala?
[20:46] <cavalcanti_> Tal complexidade resulta do ser espaço de construção humana
[20:47] <cavalcanti_> de diálogo e dialética, de fricção e conflito
[20:47] <cavalcanti_> sempre em mudança
[20:47] <cavalcanti_> em alteração.
[20:47] <Heloisa> Vamos passar agora à segunda conferência. Convido agora o Profº João Carrascoza para sua fala.
[20:48] <cavalcanti_> obrigada!
[20:48] <adelmaa> Prezado(a)s, o Prof João Anzanello Carrascoza nos encaminhou sua conferência por escrito e me pediu para apresentar caso ele não chegasse no horário por ter sido impedido pelo trânsito de São Paulo.
[20:48] <adelmaa> Sua conferência intitula-se: A criação de universos literários e o consumo
[20:48] <adelmaa> Uma obra literária é a criação de um mundo pessoal, um microcosmo possível, cujas fronteiras nem sempre são plenamente definidas, mas que, de certa forma, revelam, em suas divisas, a maneira de ser, sentir e pensar de quem a concebe.
[20:48] <adelmaa> Se construir um universo de tal natureza, como a Macondo de García Márquez, demanda afinidades eletivas do autor, para que o leitor seja transportado ao seu interior, será preciso que tenha afinidades afetivas com este território ficcional.
[20:48] <adelmaa> Maria Aparecida Baccega nos lembra que “a literatura é o espaço da existência, ou seja, das possibilidades presentes num determinado momento histórico, numa dada sociedade”.
[20:48] <adelmaa> Assim, a ficção é uma escolha, por parte do artista, dessas possibilidades da existência humana, uma escolha que provém, obviamente, de suas limitações, que, no entanto, contribuem para emoldurar o núcleo de seu universo literário.
[20:48] <adelmaa> A ficção, consubstanciada na obra de todo e qualquer autor, transfigura o real, porque emana de sua concretude social e histórica.
[20:49] <adelmaa> Tal transfiguração pode assumir as mais diversas formas – como o gênero fantástico, o maravilhoso, o realismo mágico etc. –, sem se dissociar, contudo, da realidade da qual ela se origina.
[20:49] <adelmaa> O discurso literário manifesta, pois, uma posição, uma “visão de mundo” do escritor, captada através do narrador e das personagens por ele concebidos e condicionada pela dimensão histórica e social de seu tempo.
[20:49] <adelmaa> Alfredo Bosi, ao investigar a obra de Machado de Assis, alerta para a importância de estudá-la não unicamente por meio de um ponto de vista, lingüístico ou sociológico – o ponto de vista é fixo –, mas através do olhar.
[20:49] <adelmaa> O olhar tem a vantagem de ser móvel, incorporando outros campos de conhecimento.
[20:50] <adelmaa> A beleza da literatura está na pluralidade. Produzimos e consumimos literatura “por que a vida não basta”, como escreveu Fernando Pessoa.
[20:50] <adelmaa> Cada autor imprime em seu microcosmo ficcional uma marca própria. Temos, então, coexistindo, o tempo todo, uma pluralidade de obras. E o leitor tem um espectro variado e crescente de escolhas.
[20:50] <adelmaa> Para mim, parte da beleza da literatura advém justamente dessa pluralidade. E, aqui, faço um pequeno relato pessoal, narrando como foi o meu encontro com a literatura, a partir da minha condição primeira de leitor.
[20:50] <adelmaa> Vivendo, em criança, numa pequena cidade do interior paulista, Cravinhos, logo que aprendi a ler, decidi mergulhar nos livros dispostos numa estante de casa, graças à minha mãe que era professora e apreciadora de romances.
[20:50] <adelmaa> Em meio àquelas prateleiras, dei com uma coleção chamada “O mundo da criança”. Cada tomo era sobre um tema específico (“Como as coisas funcionam”, “Você e seu corpo” etc.). Os volumes que mais me fascinaram eram de poesias e contos.
[20:51] <adelmaa> Traziam histórias de fadas, lendas orientais, adivinhas, canções populares, trovas, haicais, relatos históricos, acompanhados de coloridas ilustrações. Uma diversidade tão rica que, em contato com ela, foi que comecei a amar as diferenças.
[20:51] <adelmaa> A cada página desses livros, eu me deparava com um universo diferente, formando, no seu somatório, um catálogo ímpar de sonhos.
[20:51] <adelmaa> Antonio Candido, num já clássico ensaio sobre o “direito à literatura”, escreveu que ninguém pode passar muitas horas sem sonhar – e que a literatura, portanto, é o sonho acordado da civilização.
[20:51] <adelmaa> Lendo aqueles poemas e contos de “O mundo da criança”, comecei a sonhar acordado. Ali estava, embaralhada, uma fábula de Êsopo e outra de La Fontaine. Uma cantiga popular e um poema de Cecilia Meireles.
[20:51] <adelmaa> Aqueles “sonhos me maravilhavam. Não só por serem “sonhos”, mas por serem muitos, multíplices, diversos.
[20:52] <adelmaa> Mas a pluralidade não inclui só as levezas, também as angústias da existência. Diante de tantos mundos imaginários, exuberantemente descritos e ilustrados, o leitor pode fazer as suas escolhas (por afinidades afetivas).
[20:52] <adelmaa> Isso me leva à definição de “família literária”. Uma família literária é constituída de escritores e leitores ligados pelo mesmo gosto para certos tipos de histórias.
[20:52] <adelmaa> Se nos enjoam os episódios doces, vamos em busca daqueles com menos açúcar; se preferimos o deserto dos tártaros ao shan-grilá, também o encontraremos nessas prateleiras de sonhos. O diverso é que garante a beleza deste uni-verso.
[20:52] <adelmaa> Outro ponto para o qual o meu olhar se move, a fim de flagrar um aspecto essencial dos livros de ficção, fundadores (e fingidores) de mundos imaginários, é a natureza de seu leitor.
[20:52] <adelmaa> Fecundo foi o conselho do pai de Borges, ao dizer ao filho (ainda menino), que não perdesse tempo em ler paratextos de um livro, mas que nele entrasse nu, a descobrir, por si só, se a trama o absorvia.
[20:52] <adelmaa> Nada mais apropriado do que escolher aquilo que desejamos ler. Em sua gênese, o verbo ler significa precisamente decifrar, interpretar, reconhecer (-se).
[20:53] <adelmaa> Se ler é “re-conhecer-se”, não há idade para o leitor se escrever e re-escrever o mundo em si; não há idade para escolher o seu sonho – e, uma vez dentro ele, lançar-se ao prazer de interpretá-lo.
[20:53] <adelmaa> O acesso à ficção, seja uma ficção de levezas ou de aflições, deveria ser franqueado ao leitor de qualquer idade. Como em Alice no país das maravilhas, as portas estariam sempre abertas.
[20:53] <adelmaa> Melhor: não existiriam portas. Não se deve, pois, vetar à criança (a ninguém!) o direito de entrar num território de possibilidades, criado por esse ou aquele escritor.
[20:53] <adelmaa> Se a criança não for capaz de entender a máquina daquele mundo, o seu estranho mecanismo, não há problema. Poderá voltar a ele no futuro, como voltamos à casa, ao mar, aos nossos abismos.
[20:53] <adelmaa> Ainda que um leitor não possa, pela falta de repertório, compreender plenamente uma história, ao menos a percepção e o entendimento de alguns de seus traços, marcantes ou superficiais, ele conseguirá.
[20:53] <adelmaa> O que importa não é a grandeza de sua re-escritura, mas a liberdade de fazer a sua leitura. Mesmo que não seja como no conto Felicidade clandestina, de Clarice Lispector.
[20:54] <adelmaa> A menina, protagonista dessa história, depois de ler as páginas iniciais de Reinações de Narizinho, experimenta uma súbita transformação: “não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante”.
[20:54] <adelmaa> Ou seja: cada um de nós, diante de um jardim florido, pode ver a beleza de um único canteiro de flores, ou alargar a visão e perceber a sua magnitude inteira.
[20:54] <adelmaa> Uma vez dentro do universo ficcional de um livro, conhecer as suas nuances, o seu mecanismo fabular, e compreender a sua singularidade, depende do nível de leitura do indivíduo.
[20:54] <adelmaa> Se todo autor escreve a partir do manancial de experiências que lhe são próprias, todo leitor lê enraizado em seu repertório existencial. Assim, não se deve proibir ao leitor o mergulho em uma obra complexa.
[20:54] <adelmaa> O prazer de consumir literatura, como qualquer outra arte, está, de certa forma, associado ao que Tolstói, em seu célebre ensaio sobre a expressão artística, chamou de “contágio”:
[20:54] <adelmaa> “a arte é a atividade humana em que uma pessoa, conscientemente, através de certos sinais exteriores, comunica aos outros sentimentos vivenciados por ela, de tal modo que este se contagie e vivencie os mesmos sentimentos”.
[20:54] <adelmaa> Para o escritor russo esse “contágio” é inerente à arte e, quanto mais forte, melhor a qualidade da obra:
[20:54] <adelmaa> “o receptor fica mais satisfeito à medida que se torna mais claramente expresso o sentimento que, conforme lhe parece, ele já experimenta e conhece há muito tempo, e para o qual só agora encontrou uma expressão”.
[20:55] <adelmaa> Tal comunhão, acrescento, pode se dar em qualquer idade, independentemente da intensidade do sentimento atualizado pelo leitor. Estabelecido o contágio, ele está apto a ler não apenas a obra, mas também a escrita (pessoal) do autor.
[20:55] <adelmaa> Em outras palavras: o leitor faz parte da família literária do escritor cuja obra ele admira.
[20:55] <adelmaa> Assim como o leitor é leitor-escritor, também o escritor é, antes de tudo, leitor (do mundo e da palavra).
[20:55] <adelmaa> A leitura de mundo do escritor vaza para a sua escrita. Por meio dela é que se dá, em última instância, o contágio com o leitor, já que a palavra é apenas o canal que possibilita a comunhão, não a sua fonte.
[20:55] <adelmaa> O leitor lê o mundo construído pelo escritor, assim como o filho, neste poema de Carlos Drummond de Andrade, não vê apenas, nos traços físicos que configura um rosto, a trajetória de experiências vividas pelo pai, mas também decifra seus sentidos:
[20:55] <adelmaa> Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho./ Se a noite me atribui poder de fuga,/ sinto logo meu pai e nele ponho/ o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga.
[20:56] <adelmaa> Essa certeza me levou a escrever o romance, para todas as idades, O homem que lia as pessoas, no qual o pai de um garoto (o narrador da história) tem a habilidade de ler as “situações” as quais vivencia.
[20:56] <adelmaa> Também me motivou a escrever alguns contos, entre eles, A segunda cartilha, na qual dois irmãos, crianças ainda, se dão conta de que cresceram no instante em que percebem – depois de ler o mundo – que o vizinho, então doente, finalmente morrera.
[20:56] <adelmaa> Ler, o mundo-mundo e a palavra-palavra, e ler o mundo (de um escritor) pela sua palavra, torna móvel a posição do leitor, estica e aguça o seu olhar.
[20:56] <adelmaa> Para finalizar, eu me pergunto: para qual leitor escrevo? Só escrevo quando sinto emergente, com seus gozos e suas dores, um mundo possível que me pede para ser construído.
[20:56] <adelmaa> Por vezes, é um mundo que tematiza a infância ou a adolescência, o que não significa que a obra tenha sido pensada para contagiar preferencialmente o público juvenil.
[20:57] <adelmaa> É apenas o território para o qual a minha alma pede o meu deslocamento imaginário (assim como o corpo, às vezes, citando os versos de Lenine, pede um pouco mais de alma).
[20:57] <adelmaa> José Paulo Paes, num artigo clássico, apontou a importância de se produzir também uma literatura de entretenimento. Adultos, por mais intelectualizados, precisam consumir sonhos literários, nem sempre engenhosamente arquitetados.
[20:57] <adelmaa> A literatura, com seu grande painel de mundos possíveis, criado por inumeráveis e distintos escritores, é uma segunda vida, como definiu o poeta Fernando Pessoa em Dactilografia:
[20:57] <adelmaa> Temos todos duas vidas: / A verdadeira, que é a que sonhamos na infância, / E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa; / A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros, / Que é a prática, a útil...
[20:57] <adelmaa> Cabe a cada um de nós escolher os tipos de sonhos para preencher essa segunda vida. Faz parte dela, à semelhança da primeira, o sofrimento, a desilusão, a morte, tanto quanto o júbilo, a fantasia, o nascimento.
[20:57] <adelmaa> O escritor David Grossman, no romance Fora do tempo, diz, pela voz de um de seus personagens, que a poesia é a língua do luto. Sim, a poesia é a língua do luto, mas é, também, felizmente, a língua da vida.
[20:58] <adelmaa> Muito obrigado!
[20:58] <adelmaa> Como O Prof João não pode chegar atempo me disse que asperguntas que forem postadas aqui serão por eles respondidas e postadas na página do stis.
[20:59] <adelmaa> Muito Obrigada!
[20:59] <Heloisa> Nossos agradecimentos ao Profº João Carrascoza por essa belíssima conferência e passamos agora às perguntas.
[21:00] <adelmaa> Profª Joana, parabéns pela belíssima apresentação.
[21:01] <cavalcanti_> Obrigada!
[21:03] <acris> clap clap clap clap clap
[21:05] <cavalcanti_> A
[21:05] <adelmaa> Joana, percebi que na escola se prioriza a leitura indivual ao invés da leitura em grupo ou da encenação, comrpeensão propria do teatro.
[21:07] <adelmaa> Você acha que o teatro não seria um recurso fenomenal a ser usado na escola para ajudar o alunoa compreender não só o texto,mas as nuances que só a literatura em si traz para o leitor?
[21:07] <Heloisa> Parabéns Profª Joana por essa fala que nos traz um frescor em tempos obscuros que estamos vivendo. Pensar numa educação para o ser poético, criativo, inventivo e sensível - um leitor de mundo e de si mesmo inserido neste mundo é fundamental. Qual seria a semeadura necessária a inspirar esse leitor neste caminho?
[21:09] <cavalcanti_> Sim, acho que sim. Mas também acho que ambas são importantes. A leitura silenciosa nos oferece espaço para a reflexão, o mergulho no mundo da narrativa de forma instropectiva. É importante. Mas a leitura compartilhada nos propõe um diálogo diferente, uma discursão com os nossos pares que traduzem a obra a partir da sua visão de mundo, da sua experiência. Então, as leituras se mesclam em sentidos diferentes.
[21:12] <cavalcanti_> Eu acho que o teatro é fundamental sempre! Além disso é um excelente recurso pedagógico que motiva a leitura. Dá a possibilidade de se trabalhar de forma interdisciplinar, desenvolve a capacidade de compreender e interpretar, mas também outras competências que têm a ver com outras áraes e potencialidades.
[21:13] <cavalcanti_> Acho que o texto do Professor João nos dá muitas respostas e levantas outras dúvidas.
[21:14] <adelmaa> Clap clap clap clap! Excelentes apresentações. Prezada profa Joana esta conferência aparecerá na página do stis e poderá ser copiada e usada em salas de aulas do Brasil inteiro.
[21:15] <adelmaa> Este retorno nós temos de vários educadores. Ademais percebemos o alcance deste nosso projeto por meio das visualizações.
[21:16] <cavalcanti_> Sem dúvida vivemos tempos difíceis em muitos aspectos. Vivemos tempos de "perdição". Somos convocados para o passageiro, volátil, superficial. Estamos fragmentados tal como a própria realidade. Vivemos tempos de fronteiras e não sabemos muito para onde ir ou se devemos ir. Perdidos de nós mesmos e dos valores que nos tornam diferentes porque nos humanizam.
[21:18] <Heloisa> Profª Joana, muitíssimo obrigada por sua presença.
[21:19] <Heloisa> Ficamos aqui encantados com suas palavras que nos rementem a profundas reflexões.
[21:19] <Heloisa> Agradecemos a presença de todos e já lembrando que no dia 18 de outubro teremos outra conferência stis com o Prof Ms. Greiton Toledo de Azevedo e a Profª Débora Denise Dias Garofalo
[21:20] <cavalcanti_> Parabéns! Acho que a saída , a porta que se abre a espera de um mundo melhor, mais digno é construída por iniciativas como esta. Discutir, refletir sobre as práticas e principalmente sobre o professor , professora ou pessoa que desejamos ser. Obrigada a todos e parabéns pela criação do espaço. É um movimento significativo que nos convida e desafia a fazer diferente.
[21:20] <Heloisa> A todos muito obrigada e boa noite!
[21:21] <adelmaa> Clap clap clap a todos pelo belíssimo evento. Obrigadíssima, profª Heloísa, pela excepcional moderação. A todos uma boa noite!

 

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